Besthome | A obsessão pelas formas lúdicas e as cores vibrantes de Britto Velho
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A obsessão pelas formas lúdicas e as cores vibrantes de Britto Velho

Um dos artistas brasileiros contemporâneos de grande destaque nas artes plásticas nacional é gaúcho de Porto Alegre e um apreciador da cidade. Carlos Carrion de Britto Velho construiu carreira de reputação internacional, morou em Buenos Aires, Paris e São Paulo, mas conta que nunca conseguiu se desligar da terra natal, onde ajudou a construir, nos anos 1970 e 1980, a “Escola” do Atelier Livre da Prefeitura – atual Atelier Xico Stockinger – ao lado de nomes como Iberê Camargo e, claro, do homenageado colega. A “Escola” marcou época e formou gerações de artistas, além de ser um caminho alternativo ao academicismo das Belas Artes local. “O Atelier Livre era fantástico. Todos os artistas que vinham de São Paulo, do Rio e de fora do Brasil iam para lá. Era um centro efervescente de cultura”, relembra o artista.

 

Britto Velho, como é conhecido no mundo das artes e do público, impressiona pelas obras de estilo inconfundível, criadas com cores fortes e figuras enigmáticas. Um mundo lúdico, fruto de uma mente criativa que explora como poucas a riqueza do inconsciente e busca, pela arte, recriar a realidade com alegria e leveza. “O artista capta o mundo e se volta para dentro de si. Não é uma esquizofrenia. Como dizia meu pai, o importante é ele sair de novo, senão fica louco. Aí ele volta com toda aquela carga, experiência do intimismo. Considero que isso é o que marca o estilo de cada artista”, sintetiza Britto Velho.

 

Entretanto, o estilo seguido nas últimas décadas, e definido pelo próprio artista como surrealismo fantástico, surrealismo latino-americano ou nova figuração, nem sempre conduziu a obra de Britto Velho. Resulta de uma longa e corajosa caminhada pelo mundo das artes. Autodidata, Britto Velho começou suas experiências aos nove anos e se diverte ao contar que a estreia foi pintando uma paisagem em uma bandeja onde se guardavam as camisas do pai. “Ele adorou, mas a minha mãe, não. Ela mandou lixar e não me apoiava muito, pois tinha medo de que eu passasse fome”, brinca. Ele teve, porém, na figura paterna, o psicanalista Victor de Britto Velho, a força necessária para investir na carreira escolhida.

 

Até os 19 anos, Britto Velho morou com os pais em Buenos Aires. Foi no retorno a Porto Alegre que assumiu a profissão, realizando sua primeira exposição individual na cidade, ao completar 25 anos. Desde então, o pintor, escultor, desenhista, gravador e professor nunca mais parou, e construiu um vasto currículo no Brasil e no exterior, com mais de 50 mostras individuais e 350 participações em exposições coletivas e salões de arte. “Sou um artista que se expõe, não me escondo. Acho que o trabalho tem de ser mostrado, e sou muito convidado”, avalia, ao comentar que está com uma série de projetos para 2018. Entre os planos, há até expansão da sua arte para a moda. Em parceria com o publicitário e estilista Régis Duarte, as obras de Britto Velho viraram estampas de roupas e devem ganhar comercialização em solo norte-americano.

 

Mas, para conquistar novos mundos, ele não pretende viajar. Britto Velho conta que diminuiu a participação presencial em exposições e mostras desde que completou 62 anos (há uma década), seguindo a profecia do amigo Xico Stockinger e decidindo dedicar mais tempo à produção de sua arte. “A boca dele foi santa. Eu fazia umas cinco exposições por ano, no Brasil e no exterior. Depois me acalmei um pouco. Ele comentou isso porque tinha experiência; o mesmo ocorreu com Iberê Camargo, por exemplo. Chega um momento em que o artista se dá conta de que o importante é a obra dele. Com as viagens, perde-se o tempo de estar pintando”, explica.

 

Obcecado pela produção incessante e de alta qualidade, o artista revela ter nos blocos de desenhos e estudos o início de sua metodologia de criação. “Vou desenhando e dali posso fazer um desenho bem-acabado, uma pintura, uma gravura ou uma escultura. Quando vou fazer isso, pego vários desenhos e começo a unir graficamente, a desenhar, e chego aonde quero. Aí começam a vir as cores, esqueço que isso é figura, que aquilo é bicho. É uma outra viagem, que é a da cor. Elas têm de fechar entre si, ter composição e harmonia”, conta. Questionado sobre o significado dos desenhos, Britto Velho explica que busca humanizar as figuras e as trata como algo único. “Eu tenho uma obsessão por cores e formas. Começo sempre pelo fundo, e as cores vão mudando. Assim como o ser humano, que pode ver que não tenho a preocupação de determinar o sexo, por exemplo, eu não tenho muita preocupação sobre o que é esse bicho. Pode ser um gato, um cachorro, um cavalo, um lobo.”

 

De humor acirrado e para quem a vida não deve ser levada tão a sério, ele conta que certa vez um crítico argentino insistia que suas criações eram fruto de abdução de seres extraterrestres, e até chegou a telefonar para sua casa. “Ele me pegou meio irritado, e eu disse: engraçado, quando estou serrando a madeira, montando o quadro e fazendo o fundo, não aparece nenhum marciano para me ajudar. Mas, quando estou pintando, foi o marciano que me abduziu”, diverte-se ao recordar. O que talvez o crítico não soubesse era todo o trabalho que houve até a arte de Britto Velho ser reconhecida e aceita pelo público. “O artista tem de ter muita força para não se entregar à opinião dos outros. No início diziam que meu trabalho era muito louco, era para museu e não para pôr em casa. Demorei muito a ser reconhecido, trabalhei uns 30 anos até isso acontecer. Cheguei a ficar sete anos sem vender um quadro e pintando feito louco”, desabafa.

 

A ida a São Paulo, em 1984, que resultou numa estadia de oito anos na cidade, foi o que impulsionou sua carreira nacional e internacionalmente. Após participar do Grande Salão de São Paulo, comparável à Bienal atual, ele foi convidado pelo marchand, dono da famosa Galeria Tema, a realizar uma exposição individual no local. Para isso, tinha de produzir obras, e decidiu criá-las na capital paulista. “Fui para passar seis meses e acabei me mudando, não gosto de viajar muito, prefiro me mudar.  Consegui me projetar para através de São Paulo. Foi lá que consegui grandes espaços, como uma grande exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo”, relembra.

 

Igual ocorrera na década de 1970 – quando decidiu retornar de Paris à terra natal, em 1976, após dois anos –, houve um momento em que Britto Velho retornou de São Paulo a Porto Alegre. Ele comenta que houve certa rejeição da classe artística logo que voltou, e atribui a reação ao bairrismo local. “Quando voltei tive de provar de novo que era artista. Depois fiz uma grande exposição, e todos os jornais e revistas, à época, falaram que eu seguia sendo artista”, recorda com o habitual tom de brincadeira e sem rancor. Ao ser questionado sobre o que o atrai em Porto Alegre, ele cita o prazer de caminhar na Rua da Praia e comer um bom churrasco. “Não consigo ficar muito longe da minha terra, eu tenho que voltar”, desabafa Britto Velho. As idas ao Centro Histórico da capital também são destinadas às visitas ao Museu de Artes do Rio Grande do Sul, de cujo Conselho faz parte. O artista também está no Conselho da 11ª Bienal do Mercosul.

 

As viagens ao seu próprio eu são as que mais o atraem atualmente, após, segundo o artista, ter matado a vontade de conhecer lugares externos. “Minha curiosidade está muito mais voltada ao meu interior, onde vou descobrindo coisas.” Tendo como ícones e fonte de inspiração artistas como Van Gogh, Miró, Paul Klee, Picasso e Matisse, por quem se diz apaixonado, Britto Velho busca oferecer ao público um mundo mais bonito com sua arte. “Meu trabalho fala de um mundo novo, em que vai dar tudo certo. O mundo está caótico. Então, já faz alguns anos que proponho um mundo lúdico em que tudo dará certo. Acho que o ser humano vai ter que dar um jeito, tenho esperança na humanidade”, indica o mestre das cores.

 

Crédito das fotos: Divulgação

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