Besthome | A música como inclusão social
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A música como inclusão social

Há mais de 26 anos, a Orquestra Villa-Lobos realiza um trabalho de educação musical na Escola Municipal de Ensino Fundamental Heitor Villa-Lobos, com crianças e jovens da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. O acesso ao conhecimento musical e a vivência artística e socializadora promovem a autoestima, estabelecendo interação com os elementos da cultura local e ampliando as possibilidades de participação na sociedade.

Idealizadora desse projeto, regente e coordenadora, a professora Cecília Rheingantz Silveira concedeu uma entrevista à Revista Best Home para falar um pouco mais sobre esse trabalho.

 

Revista Best Home – Como surgiu a Orquestra Villa-Lobos e qual o sentimento de capitanear o surgimento de um projeto que impacta diretamente na vida dessas crianças e adolescentes?

Cecília Rheingantz Silveira A Orquestra Villa-Lobos surgiu da ideia de intensificar e ampliar os estudos de música no contraturno escolar, com grupo de alunos de 5ª série da EMEF Heitor Villa-Lobos dos quais eu era professora de música no ensino regular. A atividade começou despretensiosa, no entanto, carregada de intenção metodológica, despertando grande interesse nos alunos. Em seguida percebi que se abria um leque de possibilidades, e um novo universo estava sendo descortinado para aquelas crianças. Meu sentimento, desde então, é de compromisso com a educação musical de qualidade na escola pública.

 

Revista Best Home – Quando começou esse projeto e qual considera o principal legado para essa comunidade?

Cecília Rheingantz Silveira – Começou no dia 15 de abril de 1992, na primeira aula do Clube de Flauta. O principal legado é a inclusão social por meio da música.

 

Revista Best Home – Como a música auxilia na formação educacional?

Cecília Rheingantz Silveira – A música é uma importante área de conhecimento na formação integral do indivíduo, abrangendo aspectos cognitivos, socioafetivos e psicomotores. Atua no desenvolvimento de raciocínio lógico-matemático, expressão da linguagem, motricidade e de competências de sociabilização e organização, que promovem a autoestima e a coletividade.

 

Revista Best Home – Como funciona o projeto? São crianças apenas da Região da Lomba do Pinheiro? Quantas crianças participam atualmente e qual a média de idade?

Cecília Rheingantz Silveira – A Orquestra Villa-Lobos é um programa de educação musical por meio de oficinas de variados instrumentos musicais (flauta doce, violino, viola, violoncelo, piano, violão, baixo elétrico, cavaquinho e percussão), além de coral infantil e adulto, sapateado americano, teatro e prática de orquestra. As atividades funcionam no contraturno na EMEF Heitor Villa-Lobos e em outros quatro locais da Lomba do Pinheiro, em parceria com o Centro de Promoção da Criança e do Adolescente São Francisco de Assis. Participam crianças a partir dos 4 anos de idade até adultos, totalizando mais de 300 atendidos.

 

Revista Best Home – Quais considera as principais ações já desenvolvidas nessa escola e qual a interação com o plano pedagógico?

Cecília Rheingantz SilveiraA EMEF Heitor Villa-Lobos neste ano completa 60 anos e segue sendo a única escola na comunidade da Vila Mapa, com 1.300 alunos. Nos últimos 27 anos, a música tem desempenhado papel fundamental na escola, não só por carregar o nome de um grande músico brasileiro, mas também por trazer a arte de forma viva no dia a dia escolar, inserida com destaque no Plano Político Pedagógico da escola. De forma evidente, os alunos que participam da orquestra se tornam lideranças em suas salas de aula e, o mais importante, seres humanos sensíveis, articulados, críticos e com visão de mundo ampliada. Além da orquestra como grupo artístico – composto por 45 alunos e ex-alunos da escola –, também há grupos formados nas oficinas, como o de Percussão, Chorinho, Grupo de Flautas, Coral Infantil, Vocal, Sapateado Americano, Teatro, que se apresentam ao longo do ano em atividades do calendário escolar.

 

Revista Best Home – Pensando nas apresentações e concertos que aconteceram nesse longo período, quais os que considera mais emblemáticos?

Cecília Rheingantz Silveira – São mais de 1.200 concertos no Brasil e Mercosul, para público superior a 350 mil pessoas. Difícil eleger alguns. Mas, em minha memória, têm lugar muito especial os concertos no Fórum Mundial de Educação, para mais de 10 mil pessoas, no Gigantinho, em 2003; em Córdoba, na Argentina, em 2004; na abertura do Congresso da CONAE, em Brasília, em 2010; o de 25 anos, no Theatro São Pedro, em 2017; e o espetáculo Paz & Amor, em 2018.

 

Revista Best Home – A arte é uma das principais ações de inclusão social. Como avalia o papel desempenhado pela instituição e quais as principais dificuldades do cotidiano?

Cecília Rheingantz Silveira – A Orquestra Villa-Lobos transformou a vida da comunidade da Vila Mapa, principalmente porque elevou a autoestima e deu às famílias a oportunidade de seus filhos construírem projetos de vida reveladores. Muito tempo atrás, na primeira reportagem do Diário Gaúcho sobre a orquestra, fui abordada por uma moradora na porta da escola, que me disse: Que orgulho! A Mapa não é mais só manchete policial. Está na capa do jornal por uma coisa boa! De lá para cá, muitas outras reportagens, grandes espetáculos e premiações só enchem ainda mais a Mapa de orgulho. Participar da orquestra se tornou grande status na comunidade. As principais dificuldades do cotidiano são as condições precárias do espaço físico, muito pequeno para o tamanho da orquestra, a falta de recursos para manutenção e aquisição de instrumentos e equipamentos, falta de recursos para contratação de profissionais na equipe e as situações de vulnerabilidade de crianças e suas famílias.

 

Revista Best Home – Muitas vezes, há pessoas que têm desejo de contribuir com a causa, porém, não sabem de que maneira. Como se dá esse processo no projeto?

Cecília Rheingantz Silveira – As pessoas podem contribuir com ajuda financeira, via conta bancária, com prestação de serviço voluntário e com doação de instrumentos musicais e materiais.

 

Revista Best Home – Quais as metas traçadas para o futuro desse programa?

Cecília Rheingantz Silveira – Seguir garantindo a continuidade do programa e investir em melhorias do espaço físico.

 

Revista Best Home – Há crianças do projeto que desenvolveram carreira na área musical?

Cecília Rheingantz Silveira – Sim, várias. Dos 24 educadores musicais do programa, 14 são professores e monitores formados na orquestra. Há dez anos se formou na faculdade de música nossa primeira aluna, iniciada no projeto quando criança. Também foi a primeira jovem graduada na comunidade. Atualmente, são sete cursando a faculdade de Música, outra aluna já formada e o nosso grande orgulho: Vladimir Soares, mestre em Música de Câmara e em Flauta Doce pela Universidade de Sttutgart, na Alemanha, onde está radicado há seis anos. Alguns dos musicistas também integram a OSPA Jovem, preparando-se para o ingresso na música sinfônica profissional.  E outros se dedicam à música popular, atuando em grupos variados, sendo que o destaque é para o Pagode do Bronx, grupo formado por integrantes da Orquestra Villa-Lobos há dois anos, com sucesso na comunidade e se lançando em carreira fora dela.