Besthome | O cinquentenário de um passo que fez história
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O cinquentenário de um passo que fez história

Cinquenta anos após o homem pisar na Lua, qual será o futuro da ciência espacial?

 

Com um “pequeno passo”, 50 anos atrás, no dia 20 de julho de 1969, Neil Armstrong tornou-se a primeira pessoa a pisar na Lua. Acompanhado de Edwin “Buzz” Aldrin – o segundo homem a realizar tal feito – e Michael Collins – encarregado de pilotar a nave que traria os astronautas de volta –, Armstrong venceu uma gravidade que representa um sexto da que existe na Terra, a 384 mil quilômetros de distância. Mas a Lua valia o esforço. “Adere à sola e aos lados das minhas botas, formando uma camada fina como poeira de carvão”, descreveu sobre o solo. Um pequeno passo para Armstrong, um grande passo para a humanidade, como o próprio afirmou na célebre frase. Uma humanidade que viu duas nações levarem a disputa política a outro nível: o espacial. Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Separados por sistemas econômicos, culturas e continentes, ambos protagonizaram a Guerra Fria, na qual a corrida espacial era uma das medidas de poder.

 

Em 1957 os soviéticos criavam um espetáculo ao apresentar sua mais nova arma, o míssil balístico intercontinental, utilizado para colocar em órbita o primeiro satélite artificial do mundo, o Sputnik 1. Do tamanho de uma bola de basquete, o dispositivo deu uma volta ao mundo em uma hora e meia, parecendo ser o auge da ciência. No entanto, os soviéticos tinham mais a mostrar: um mês depois, era lançado o Sputnik 2, que levava o primeiro ser vivo ao espaço, a cadela Laika. A possibilidade de o ser humano chegar ao espaço começava a ser levantada pela imaginação das pessoas, inclusive dos norte-americanos, para quem estava nítido que o mesmo míssil poderia lançar armas atômicas, acabando com a Guerra Fria. Em 1958 o então presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, criava a Nasa (Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço), dando início à corrida espacial com o anúncio do projeto Mercury, que levaria o homem ao espaço. No entanto, a União Soviética estava à frente, e, em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin deu uma volta ao redor da Terra em 108 minutos, na cápsula Vostok 1.

 

Para os norte-americanos, era preciso superar a União Soviética por meio do que ainda não tinha sido conquistado do espaço – a Lua. Em 1962 foi definido o método utilizado: encontro em órbita lunar. Uma nave, Columbia, ingressaria na órbita lunar, de onde outra nave menor, a Eagle, levaria os astronautas ao solo por algumas horas. Esta última não voltaria à Terra, somente retornaria a primeira, na qual Collins esperava por Armstrong e Aldrin. A dificuldade estava no encontro e acoplamento de duas naves em órbita, que dependiam de cálculos com alto grau de complexidade.

O lançamento da missão Apollo 11 parou o mundo. Em 16 de julho de 1969, a nave Columbia, de 45 toneladas, foi lançada no maior foguete já construído, o Saturno V, com seus 110 metros de altura e 3 mil toneladas.  Quando Armstrong, Aldrin e Collins partiram a bordo da Apolo 11, uma multidão de 1 milhão de pessoas se reuniu nas vizinhanças de Cabo Canaveral, na Flórida, entre elas, 850 jornalistas de 55 países, que registraram um dos principais acontecimentos da história. Calcula-se que cerca de 1 bilhão de pessoas viram pela televisão quando Armstrong marcou o solo do Mar da Tranquilidade, local escolhido para o pouso. Além de levar o homem à Lua, a missão tinha como propósito a coleta de pedras e poeira lunares, além da instalação de equipamentos como um sismógrafo, um refletor de raios laser, uma antena de comunicação, um painel para o estudo dos ventos solares e uma câmera de TV. Foi o que fizeram Armstrong e Aldrin durante as 22 horas de permanência em solo lunar.

 

O brasileiro que ganhou o espaço

Em 29 de março de 2006, o primeiro e único astronauta brasileiro decolava em direção ao espaço. O então tenente-coronel da Força Aérea Brasileira, Marcos Pontes, acompanhado do russo Pavel Vinogradov e do norte-americano Jeffrey Williams, estava a bordo da nave russa Soyuz-TMA 8, que partiu em direção à Estação Espacial Internacional na missão Centenário. O nome da missão homenageava outro feito histórico, o de um brasileiro que ganhou o céu: em 1906, o pai da aviação, Santos Dumont, sobrevoou Paris com o 14 Bis. Com a bandeira do Brasil em mãos, Pontes foi o primeiro a flutuar para dentro da estação, na qual ficou por oito dias.

 

O envio de Marcos Pontes ao espaço tinha metas ambiciosas de realizar experimentos em ambiente de microgravidade, incentivar o crescimento dessa área de pesquisa no Brasil, homenagear Santos Dumont e promover o Programa Espacial Brasileiro. Entre os experimentos testados, estavam dois da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que estudavam a transferência de calor em ambiente de microgravidade, os quais são utilizados hoje na indústria aeronáutica, possibilitando que os aviões deixem de gastar combustível ao fazer a refrigeração dos equipamentos eletrônicos.

 

Uma missão brasileira

“Quando Neil Armstrong pisou na Lua, ele levava a mensagem de que podemos ir além.” Essa é a opinião de Lucas Fonseca, único brasileiro a participar da Rosetta, missão da Agência Espacial Europeia que, pela primeira vez, fez uma sonda pousar em um cometa, no ano de 2014. Para o engenheiro espacial, mesmo que a chegada do homem à Lua esteja envolvida com a disputa entre duas nações, as grandes conquistas da ciência espacial foram de todos. Apaixonado pela ciência, Lucas afirma acreditar que a chegada do homem à Lua foi a narrativa que mais uniu povos da Terra até hoje: “No dia em que o homem pousou na Lua, o mundo inteiro parou para assistir àquele momento tão especial”. Desse pensamento de que a ciência espacial une nações e da percepção de que era o único na missão Rosetta, surgiram as reflexões de que o Brasil precisaria criar oportunidades. Um desejo que Lucas descobriria não ser somente seu.

 

Junto a outros jovens pesquisadores brasileiros, Lucas criou a Missão Garatéa, que já no nome se mostra genuinamente brasileira: Garatéa vem do tupi-guarani “busca vidas”. Por meio da ciência, do empreendedorismo e da educação, a equipe dirigida por Lucas pretende colocar o Brasil na posição de país que produz tecnologia, e não apenas usufrui dela. A principal meta dessa equipe brasileira é a missão lunar Garatéa-L, que visa enviar um satélite para a órbita lunar em 2022. No entanto, outras frentes são exploradas, como a da educação em ciência espacial. Hoje, a Garatéa conta com mais de 10 mil jovens engajados em projetos da área, já tendo sido enviados experimentos de estudantes para a Estação Espacial Internacional nos últimos três anos. Para tornar esse projeto possível, a missão Garatéa conta com o apoio de pesquisadores ligados a instituições como o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE) e o Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA). O diretor da missão acredita que, com um modelo baseado no financiamento de empresas privadas, o Brasil pode chegar à Lua e entrar no hall de potências espaciais.

 

E os próximos 50?

A missão brasileira faz parte de uma nova era espacial que vem se desenhando e que deve transformar a visão acerca da ciência espacial. Diferentemente da disputa espacial vivenciada durante a Guerra Fria, a nova fase – batizada de New Space – não está focada na geopolítica, visto que seus principais atores são empresas privadas que almejam o desenvolvimento tecnológico e econômico. Esse novo modelo de ciência espacial já desperta interesse de investidores. Entre 2000 e 2016, as startups espaciais atraíram mais de US$ 16 bilhões, e mais de 140 empresas espaciais foram fundadas e financiadas, segundo relatório da consultoria Bryce Space & Technology publicado em 2017. Segundo o levantamento, na década de 2000 três novas empresas da área eram abertas a cada ano. Os últimos dados já apontam que a média é de 17 novas organizações por ano. Além disso, em 2011, a indústria espacial americana já empregava 240 mil pessoas em milhares de empresas.

 

Se a primeira fase da ciência espacial levou o homem à Lua, o objetivo agora é outro: a jornada a Marte. Elon Musk, CEO da startup norte-americana SpaceX, já anunciou a construção de uma base fixa no Planeta Vermelho para 2028. O anúncio faz parte de seu projeto de lançar uma primeira missão tripulada para Marte na década de 2030, da qual já há, inclusive, uma estimativa de preço de US$ 500 mil, aproximadamente R$ 1,9 milhão, por pessoa. No entanto, a Nasa não acredita que isso seja possível em um espaço de tempo tão curto. Ivair Gontijo, mineiro que integra o Jet Propulsion Laboratory (JPL), laboratório da Nasa, afirmou, em recente viagem ao Brasil para participar da Campus Party, em São Paulo, que ainda há muitos empecilhos técnicos para chegar a Marte, sendo o principal a impossibilidade de produzir oxigênio. Para Ivair, que participou da Curiosity 2016, missão que levou um robô até a superfície de Marte, é difícil precisar, mas o ser humano precisará de, pelo menos, mais duas ou três décadas para alcançar tal feito.

 

Outro ambicioso projeto é o divulgado pela startup Orion Space, da Califórnia, que já oferece reservas de vagas para o Aurora Station, um hotel de luxo espacial. Por US$ 9,5 milhões, cerca de R$ 36 milhões, a empresa promete uma experiência de astronauta por 12 dias em órbita a 320 km acima da superfície da Terra, para 2022. Se o turismo espacial será possível em cinco, dez ou vinte anos, não podemos afirmar, mas é fato que a ciência espacial acredita que está na hora de a humanidade dar novos passos.

 

Curiosidades

– Distância média entre a Terra e a Lua: 384.403 km, ou 1,3 segundo-luz. Isso pois, como a Lua tem órbita elíptica, no perigeu (aproximação máxima entre a Terra e a Lua) ela fica a 363 mil km de distância. No apogeu, a Lua fica a 405 mil km da Terra;

– Os cálculos de alta precisão da distância lunar são feitos medindo o tempo que a luz demora para viajar entre aparelhos montados na Terra e espelhos refletores colocados na Lua por antigas missões não tripuladas;

– A distância entre a Terra e a Lua foi medida há mais de 2.000 anos pelo grego Hiparcos, com um erro de apenas 6,8% em relação aos cálculos de alta precisão;

– A Lua está se afastando da Terra a uma taxa de 3,8 cm por ano;

– A Apollo 11, em 1969, demorou 3 dias, 3 horas e 49 minutos para chegar à órbita lunar;

– Armstrong e Aldrin cravaram uma bandeira dos Estados Unidos da América em solo lunar e colocaram junto uma placa assinada por eles e pelo então presidente, Richard Nixon, com os dizeres: “Aqui os homens do planeta Terra puseram pela primeira vez os pés na Lua. Julho de 1969 d.C. Viemos em paz e em nome de toda a humanidade”.