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Universidade de Coimbra: o elo entre tempos

O patrimônio da humanidade é também cidade de estudantes que atrai cada vez mais brasileiros

Entre mares e montanhas está Coimbra, cidade que mescla passado, presente e futuro. Berço de uma das principais universidades da Europa, que foi, até o século XX, a única universidade de língua portuguesa em todo o mundo, abriga estudantes provenientes de mais de cem países, atraídos por sua história, excelência e olhar voltado à pesquisa e inovação. Com mais de sete séculos de história, a Universidade de Coimbra – uma das mais antigas do continente europeu – integra o Center for World University Rankings das 500 melhores universidades do mundo, sendo considerada pelo QS Stars University Ratings uma instituição cinco estrelas nas áreas de ensino, inovação, pesquisa, instalações, empregabilidade, internacionalização e inclusão. Além disso, nas áreas de engenharia civil, direito e ambiente, encontra-se entre as 200 melhores do mundo.

Tanto destaque fez da UC a instituição de ensino superior portuguesa mais procurada por brasileiros, com cerca de três mil estudantes matriculados, divididos entre licenciatura – modalidade que no Brasil conhecemos como bacharelado e mestrado integrado –, com duração média de cinco anos, a exemplo de áreas como arquitetura e engenharia, mestrados, doutorados, cursos não conferentes de grau e ainda unidades curriculares isoladas. A instituição segue uma tendência comprovada por diversas pesquisas: o número de brasileiros em faculdades portuguesas apresentou crescimento de 31%, segundo dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, órgão do governo português. Somente no ano letivo de 2016/2017, foram registrados 4.901 novos estudantes brasileiros em instituições no país para cursos de primeiro ciclo (licenciaturas e mestrados integrados). Adriana Afonso, técnica superior da Divisão de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, reforça que todos os anos o número de estudantes brasileiros na UC tem aumentado.

Porém, esse intercâmbio Brasil-Universidade de Coimbra é de longa data: o registro do primeiro estudante brasileiro em Coimbra é de 1576. “Desde então, muitos milhares de estudantes brasileiros fizeram a sua formação aqui”, aponta Adriana. Alguns desses se destacaram e vieram a assumir altos postos de gestão da universidade, como Francisco de Lemos, reitor durante 40 anos nos séculos XVIII e XIX, e José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca da independência do Brasil e professor de metalurgia na UC. Outros nomes conhecidos estão no rol de brasileiros graduados pela instituição, como o engenheiro e político brasileiro Alexandre Costa; o jurista, poeta e ativista político Tomás Antônio Gonzaga, autor do clássico “Marília de Dirceu”; bem como o advogado e poeta do Brasil colônia Gregório de Matos Guerra, alcunhado de Boca do Inferno. Além disso, a cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhotto tornou-se, em 2015, embaixadora da Universidade de Coimbra e atuou, entre 2017 e 2018, como professora convidada da Faculdade de Letras, desenvolvendo palestras, exposições, aulas abertas e ateliês sobre escrita e produção artística.

Desde março de 2014, a UC aceita os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio no seu processo seletivo de graduação. De acordo com a representante da Divisão de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, Adriana Afonso, a UC analisa e seleciona os candidatos brasileiros a partir das notas obtidas no Enem, de acordo com as notas exigidas para cada um dos cursos oferecidos. “Essa opção faz com que os candidatos brasileiros não tenham que realizar novos exames para ingressar nos cursos da UC”, explica. Adriana ressalta a praticidade para brasileiros que almejam se candidatar à Universidade de Coimbra: “Criamos uma página especialmente para os nossos estudantes brasileiros (www.uc.pt/brasil), na qual poderão encontrar todas as informações sobre candidaturas, prazos, oportunidades de estudo”.

Em busca de novas experiências

A universidade foi a escolhida de Christian Souza, natural de Pau dos Ferros, cidade do interior do Rio Grande do Norte. O jovem de 24 anos concluiu a graduação em Engenharia Civil na Universidade Potiguar, na capital do estado, e viu em Coimbra a chance de unir dois sonhos: cursar um mestrado e estudar fora do país. “Vi em Portugal uma oportunidade de realizar esses dois sonhos, devido à facilidade da língua e à boa aceitação de brasileiros nas universidades portuguesas”, explica Christian. A escolha da instituição foi o passo seguinte: o reconhecimento internacional e o renome dos professores atraíram o estudante à Universidade de Coimbra, que facilita o processo de ingresso pela plataforma online InforEstudante, como destaca o brasileiro: “Todo o processo pode ser feito pela internet, e, apesar da existência de critérios favoráveis para alunos portugueses, o processo é bem justo e igualitário para todos, estrangeiros e portugueses”.

Mestrando em Reabilitação Estrutural de Edifícios pela Universidade de Coimbra, o brasileiro recorda a origem da escolha de sua pesquisa:  “Queria pesquisar algo que pudesse estar presente na minha realidade. Morei muito tempo em Natal/RN, e isso me despertou um tema relevante para engenharia do meu estado, que é a influência do meio marítimo em estruturas de concreto armado”, explica.

O tema foi mais um ponto a favor da escolha por um país europeu para desenvolver a pesquisa, visto que “a Europa é um continente com várias estruturas antigas que sempre estão necessitando de reabilitação e reforços”. Como ressalta Christian, as universidade europeias apresentam aprofundamento no tema, com mais bibliografias, experiência e profissionais capacitados. O mestrando acredita que a vivência na Universidade de Coimbra se reflete positivamente não só para ele, mas também para o coletivo. “Dessa forma, impactamos também o Brasil, seja com nossa pesquisa desenvolvida em Portugal, seja ensinando em universidades brasileiras ou aplicando as técnicas desenvolvidas durante a mobilidade”, afirma. E conclui: “A universidade vai muito além do conhecimento acadêmico”.

Um patrimônio da humanidade

Coimbra ganhou nova projeção com a universidade, que proporcionou a formação do núcleo urbano da cidade. No século XVIII, com a reforma da instituição, conduzida pelo Marquês de Pombal, as ciências da natureza e a experimentação passam a receber mais atenção. Nesse período, são criadas as Faculdades de Matemática e de Filosofia Natural (Ciências), e a área dedicada à medicina passa por reformulação que exige a construção de novos espaços dedicados à ciência. Assim, são construídos o Laboratório Químico, o Observatório Astronômico e a Imprensa da Universidade, bem como o núcleo inicial do Jardim Botânico. Em 1773 é construído o Museu de História Natural, o mais antigo museu português, subdividido em 1885 em quatro instituições: Mineralogia e Geologia, Zoologia, Botânica e Antropologia.

Com o passar dos anos, a universidade abriu os portões do Palácio Real e se estendeu por toda Coimbra. Expandiu-se, nos anos 1990, para a zona do Vale das Flores e da Boavista, à margem direita do rio Mondego, onde foi instalado o Polo II, dedicado às engenharias e tecnologias, que abriga até hoje os departamentos desses cursos, no Instituto de Investigação Interdisciplinar. Em menos de dez anos, novas marcas do crescimento da instituição surgiram com as obras do Polo III, na zona de Celas, em torno dos hospitais da instituição, que abriga as Ciências da Saúde, com a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Farmácia, vários centros e unidades de investigação.

A universidade foi declarada pela Unesco Patrimônio da Humanidade em 2013, um feito alcançado por somente cinco instituições de ensino superior no mundo. Segundo Adriana Afonso, o estatuto foi destinado à UC devido ao “seu patrimônio e papel como centro de produção de conhecimento em língua portuguesa”. Não é de se espantar que tenha se tornado destino turístico que recebe 200 mil visitantes ao ano – a instituição representa o desenvolvimento histórico de uma população inteira, com suas construções arquitetônicas de tirar o fôlego.

Via Latina

A longa varanda com um conjunto de colunas neoclássicas está localizada na fachada principal do Pátio das Escolas. Construída durante o reinado de D. João V, seu nome remete à língua oficial da universidade até à reforma pombalina de 1772, quando o português substituiu o latim. No seu interior, destaca-se o pórtico de autoria de Claude Laprade, datado de 1701, que foi ornamentado com o busto de D. José I, em função das mudanças feitas na época da reforma de Pombal. Sua escadaria até hoje é lugar de encontro de estudantes, sendo locação para os registros de colação de grau.

Torre da Universidade de Coimbra

Com 33,5 metros de altura, a torre é considerada símbolo de Coimbra. Sua obra foi iniciada em 1728 e levou cinco anos para ser concluída. No topo, junto ao relógio, há um mirante de onde é possível desfrutar de uma vista panorâmica da cidade e do vale do Mondego. Entre os sinos, está a “cabra”, que marcava o despertar e recolher dos estudantes da UC.

Biblioteca Joanina

Construída por ordem do rei D. João V, a Biblioteca Joanina foi nomeada em sua homenagem. Com exterior em estilo barroco, seu andar principal é constituído por três amplas salas decoradas em tons de verde, vermelho e dourado, ligadas por arcos que ostentam as insígnias das antigas faculdades. As pinturas douradas com motivos chineses foram assinadas pelo artista Manuel Silva. Já as ornamentações dos tetos são obra dos lisboetas Antônio Simões Ribeiro e Vicente Nunes, e têm, no centro, figuras femininas que simbolizam a sapiência divina. Com mais de 300 mil títulos, o acervo reúne volumes datados do século XVI ao XVIII.

Porta Férrea

Com projeto do arquiteto Antônio Tavares e execução de Isidro Manuel, a Porta Férrea é a entrada do Pátio das Escolas. Com características estilísticas provenientes da Renascença, foi concebida como um arco triunfal de dupla face e apresenta estátuas, de autoria de Manuel de Sousa, de personalidades da instituição: D. Dinis, que está na origem da sua fundação, e D. João III, que a instalou definitivamente em Coimbra. Nos portais encontram-se as representações das antigas faculdades de Teologia, Medicina, Leis e Cânones.

Capela de São Miguel

A construção remonta ao reinado de D. Afonso Henriques, quando era um templo privativo para o monarca português. No entanto, depois de algumas reformas, a edificação atual é inteiramente de estilo manuelino, com autoria de Marcos Pires. Deixada inacabada após sua morte, em 1521, os trabalhos de acabamento foram assinados por Diogo de Castilho. O estilo da construção é visível no portal lateral, nas enormes janelas da nave central e no arco cruzeiro – que divide nave e capela-mor. Seu interior é revestido por azulejos seiscentistas que reproduzem figuras de estampas holandesas.