Besthome | As árvores que não morrem
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As árvores que não morrem

A obra de Itelvino Jahn é um grito poético de vida e movimento.

Seu ato escultórico não começa com o formão que desbasta a madeira ou a grosa a sugerir um olho numa fenda, mas com a paciente procura de sobreviventes numa terra arrasada. Árvores derrubadas por temporais, queimadas por raios e, principalmente, pela voragem destruidora do ser humano, em nome da ganância e do ganho imediato. Os passos começaram em Montenegro, a partir do Campo do Meio, e, apesar de avançarem num cenário de destruição, buscam os sinais vitais da natureza.

Debruçada sobre essa destruição, a escultura de Itelvino Jahn não é um testemunho de pesar e sombra, mas tentativa derradeira, poética, da sua própria salvação. Estudar o tronco aparentemente morto, enxergar os traços de vida ainda latentes e tratar de ressuscitá-lo. Dessa relação puramente intuitiva do artista emerge o tratamento, a linguagem estética: dotá-la, novamente, de movimento. Vida e movimento opostos à morte e destruição.

Não escapa um detalhe que prejudique o movimento essencial da árvore, numa paixão pelo seu movimento orgânico, que lhe torna única, viva, singular. Explorar seu movimento natural, a beleza e a tristeza presentes em cada uma, este o seu mister artístico.

Apaixonado pelo movimento desde criança, quando separava mourões na lide campeira, aprendeu a dialogar com as árvores e decifrar cada cicatriz, ruga e curva como um sinal de vida. Nem mesmo as imperfeições são esquecidas porque testemunham a resistência vegetal. Por isso não é exagero constatar que os cupins ou os raios também são autores das suas peças, num diálogo permanente onde criatura e criador não competem.

É possível que na infância sua imaginação não esculpisse monstros ou faces no balé das nuvens porque seu olhar mirava o chão, o céu verde onde bergamoteiras e cinamomos descartados se transformavam em buquês de rosas, cabeças de gado e outras figuras.

Por isso, contemplar a escultura de Itelvino é antes de tudo sonhar como o menino que um dia habitou cada um de nós. Somente a liberdade criativa e a capacidade lúdica conseguem perceber em toda sua plenitude cada movimento orgânico, apenas sutilmente sugerido pelo artista. Quando a árvore ressuscita, ganha movimento e a obra se une ao olhar do público.

O enorme esforço criativo da sua escultura é resgatar a árvore, prolongar sua existência para além da fotossíntese e do sequestro de carbono que a civilização desenfreada acarreta.

Dessa paixão pelo movimento orgânico as árvores renascem, movem-se e nos despertam desse enorme pesadelo onde por vezes temos a sensação de estar imersos. A de que é possível o belo e o movimento na morte e destruição. De que as mesmas mãos que derrubam e matam também são capazes de vida e movimento. De nos fazer sonhar.

 

Flávio Sant’Anna Xavier

Escritor