Besthome | Brasil contra a parede
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Brasil contra a parede

O economista mais influente do Brasil, segundo a Forbes, e apresentador do Manhattan Connection, Ricardo Amorim, faz um raio X do cenário econômico brasileiro e dos principais riscos.

A economia brasileira enfrenta um momento crítico. Uma série de entraves compromete a competitividade do país, limita investimentos e, consequentemente, o crescimento do Brasil. O tempo está correndo e a indefinição de pontos cruciais para a retomada do desenvolvimento aumenta, desestimulando a confiança dos consumidores e empresários.

Mesmo com um cenário duvidoso, o “Brasil se vê diante de uma grande oportunidade para retomar o crescimento”. Essa frase é do CEO da Ricam Consultoria, Ricardo Amorim, eleito em 2015 pela revista Forbes entre as 100 pessoas mais influentes do Brasil. Amorim nasceu em 12 de fevereiro de 1971, em São Paulo, capital paulista. Formado pela USP e pós-graduado em Administração e Finanças Internacionais pela Essec de Paris, atua no mercado financeiro desde 1992, tendo trabalhado em Nova York, Paris e São Paulo. Único brasileiro incluído na lista dos mais importantes e melhores palestrantes mundiais do Speakers Corner, ele ministra, há anos, palestras sobre economia e tendências no Brasil e no exterior.

Com análises bem-humoradas, Ricardo Amorim atrai um mar de seguidores nas redes sociais. Apenas no Facebook, sua página oficial tem mais de 700 mil curtidas. Tamanho sucesso nas redes levou Amorim a ser eleito, por duas vezes, em 2016 e 2018, o brasileiro mais influente no LinkedIn. Na televisão é figura conhecida dos telespectadores da GloboNews, pois faz parte do time de apresentadores do Manhattan Connection, programa que debate política, economia e comportamento.

Amorim esteve em Porto Alegre para participar do CONGREGARH 2019, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos Seccional Rio Grande do Sul (ABRH-RS), e concedeu entrevista exclusiva à Best Home.

Best HomeA expectativa do crescimento econômico do Brasil pós-eleições de 2018 era alta. O orçamento de 2019, entregue ao final do ano passado, previu um crescimento do PIB brasileiro de 2,5%, entretanto, a previsão diminuiu e já está menor que 1,5%. O que aconteceu?

Ricardo Amorim – Houve, sim, uma formação de expectativas favoráveis depois da eleição. Passado isso, se formou uma euforia, uma expectativa de que “agora vai, o Brasil vai crescer!”. Começa o governo e algumas medidas, fundamentais para que o país cresça, avançam muito lentamente, principalmente a discussão da reforma da Previdência. Isso não cria um clima favorável e reduz a confiança e a expectativa de crescimento.

 

Best Home – É possível o Brasil crescer sem as reformas, como a da Previdência e a tributária?

Ricardo Amorim – O Brasil até pode crescer sem as reformas, mas ele vai crescer pouco e por pouco tempo. O desemprego não vai cair, enfim, não é o Brasil que queremos. Desejamos um país que cresça bastante, que tenha desemprego menor, salários melhores e uma melhor condição de vida aos cidadãos. E isso não irá acontecer sem as reformas. Primeiro, a da Previdência, pois ela cria espaço, ao reduzir os gastos do governo, para ser feita uma boa reforma tributária, que simplifique e não aumente a carga de impostos. Caso seja feita a reforma tributária sem a efetivação da previdenciária, aumentarão os impostos, considerando que o Brasil já é, entre os 156 países emergentes, o terceiro que mais paga imposto. Pela carga tributária, nossos produtos são mais caros do que em qualquer outro lugar do mundo. Não é a única razão, claro; além disso temos um custo maior com o transporte, porque nossa infraestrutura é precária, mas essa certamente é a mais importante.

 

Best Home – A China e os Estados Unidos são parceiros comerciais importantes do Brasil e estão passando por uma grande guerra comercial. De que forma isso impacta na economia brasileira?

Ricardo Amorim – A guerra comercial entre eles, até hoje, ajudou o Brasil. Pois, à medida que os Estados Unidos aumentam os impostos sobre os produtos chineses, cria-se espaço para o Brasil exportar um pouco mais para os americanos. Mas, principalmente, à medida que a China retalia e aumenta o imposto sobre a importação de alimentos americanos, que é grande, o Brasil passa a ocupar esse espaço. No ano passado, as exportações brasileiras de soja foram 7 bilhões de dólares maiores do que teriam sido se não houvesse a guerra comercial, que, de lá para cá, piorou. Isso significa que o impacto positivo no Brasil neste ano vai ser maior. Mas essa situação entre eles não pode jogar a economia mundial em uma recessão. É um risco, visto que, se essa guerra continuar a escalar e ficar cada vez pior, a ameaça de recessão mundial cresce, e então o mundo inteiro vai ser impactado negativamente. Em outras palavras, se acontecer o que estou dizendo, o Brasil vai ter um pedaço maior da pizza, mas a pizza vai encolher. E a economia brasileira, mesmo sendo proporcionalmente maior, acaba encolhendo também. Não é o que está acontecendo até agora.

 

Best Home – Sobre as crises de países da América do Sul, como a Venezuela e a Argentina, de que maneira elas impactam os nossos negócios?

Ricardo Amorim – Já no ano passado, a crise argentina teve impacto importante no Brasil. Cerca de 60% das exportações brasileiras de automóveis vão para lá, e, com a queda, o resultado foi sentido na nossa indústria automotiva. Não por acaso a Ford fechou fábrica, e a GM anunciou, recentemente, que vai dar três semanas de férias coletivas. E isso não foi porque as vendas no mercado brasileiro não cresceram; elas cresceram mais de 10%, só que a queda das exportações teve impacto negativo que atrapalhou a nossa indústria – e isso deve continuar neste ano. A Venezuela é a grande questão. Por ora, o impacto negativo da crise é limitado, visto que o comércio exterior do Brasil com a Venezuela não é tão grande. Só que, se o país caminhar para uma guerra civil, ter ainda mais gente saindo de lá do que agora e indo em direção à Colômbia, ao Peru e ao Brasil, isso pode criar questões sociais importantes aqui. E, diga-se de passagem, na fronteira do Brasil com a Venezuela já há algum impacto acontecendo.

 

Best Home – Por que o mercado brasileiro parece ser resistente a modelos de negócios disruptivos, como foi a crise com os aplicativos de mobilidade e taxistas, e com a Netflix, quando o governo propôs impor taxas? Qual o problema do Brasil em aceitar negócios assim?

Ricardo Amorim – O Brasil, em geral – e isso não é só em relação a novos negócios –, tem excesso de burocracia e excesso de impostos. O que acaba acontecendo é que esses modelos disruptivos, muitas vezes quando surgem, não estão sujeitos às mesmas condições de impostos que o resto da economia. Foi o caso, por exemplo, dos aplicativos de mobilidade. O que aconteceu? Um lobby enorme dos taxistas dizendo que precisa taxar mais os apps. Na realidade, o que deveria acontecer é o contrário, nós temos que reduzir impostos em cima do táxi, e não aumentar em cima do Uber. Por que não acontece? Porque hoje, como o governo gasta dinheiro demais, ele tem que se financiar. Como ele financia isso? Com muito imposto. Precisamos mudar essa mentalidade. Diga-se de passagem, mais uma vez, por isso a reforma da Previdência é tão importante, para reduzir gastos do governo e criar condições para que os impostos diminuam.

 

Best Home – Grande parte do empreendedorismo no Brasil parte pela falta de emprego, e não só por visualizar oportunidades de negócio. Falta estímulo ou isso faz parte da cultura brasileira?

Ricardo Amorim – Empreender não é para todo mundo. Empreendedorismo exige características específicas que são relativamente raras, como capacidade de lidar com risco, capacidade de manejar as oscilações de entrada de recursos que você tem – isso muda muito a sua renda, pode ter um mês sensacional e um mês péssimo. Não tem nada errado com as pessoas montarem negócios por necessidade, mas a chance de sucesso cai porque houve menos planejamento, muitas vezes traz gente que não necessariamente tem o perfil correto. É preciso criar condições para que mais gente possa empreender e ter sucesso no Brasil. Como a gente faz isso? Facilitando o ambiente de negócios. Em maio, o governo adotou algumas medidas importantes nessa direção, mas precisa ainda reduzir carga tributária, dar melhor acesso a financiamentos e reduzir ainda muito a burocracia.

 

Best Home – Você costuma dizer que as oportunidades de negócio surgem quando ninguém mais acredita. Você acha que o contexto atual do Brasil se encaixa nisso?

Ricardo Amorim – Sim. Por que acontece isso? Porque, quando todo mundo vê uma oportunidade de negócio, todo mundo quer ir atrás daquela oportunidade, e a concorrência, a competição por aquele cliente fica muito grande. Então, nessa hora, há menos cliente do que oportunidade, e uma grande chance vira uma grande fria. Acontece o contrário quando ninguém acha que tem oportunidade. Quando ninguém quer servir um cliente, uma oportunidade, a competição é baixa, e aqueles que fazem isso têm condições de atividade muito maior. É o que está acontecendo no Brasil nos últimos anos, e é por isso que a oportunidade no Brasil neste exato momento é tão grande.

 

Best Home – Qual a sua previsão para o cenário econômico no segundo semestre?

Ricardo Amorim – Assumindo que seja no terceiro trimestre que irá acontecer a aprovação da reforma da Previdência, é quando a economia deve começar a acelerar. A gente deve sentir isso mais no fim do ano e, principalmente, ano que vem. Deixando para trás o risco de uma crise fiscal, os investimentos aumentam, a geração de emprego aumenta, as vendas das empresas aumentam, daí elas investem mais, a confiança melhora, é todo um círculo virtuoso. Mas isso não vai acontecer antes da aprovação da reforma da Previdência.