Besthome | Cinco séculos sem Da Vinci
15879
post-template-default,single,single-post,postid-15879,single-format-standard,qode-listing-1.0.1,qode-social-login-1.0,qode-news-1.0.2,qode-quick-links-1.0,qode-restaurant-1.0,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode-theme-ver-13.0,qode-theme-bridge,bridge,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.4,vc_responsive

Cinco séculos sem Da Vinci

Leonardo Da Vinci, grande nome do Alto Renascimento, era, para além da pintura, um apaixonado pelo conhecimento em todas as formas

 

Era 2 de maio de 1519. Na comuna francesa de Amboise, nos deixava, aos 67 anos, Leonardo da Vinci. Multitalentoso, poderia ser chamado de pintor ou desenhista, sendo atribuídas a ele também alcunhas como engenheiro, inventor, matemático, botânico, músico e arquiteto. Era um polímata, com conhecimento em vários assuntos, assim como autodidata. Em “Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos”, o pintor, arquiteto e escritor do século XVI Giorgio Vasari aponta que Da Vinci aprendeu sozinho latim, matemática, anatomia humana e física, e dedicava horas à evolução do seu desenho. Apesar de todo o seu interesse pela arte e ciência, não deixou tantas obras quanto seus contemporâneos. Quinhentos anos após sua morte, muitas ainda são as perguntas em torno de seu nome e sua obra.

 

A construção da caminhada de Leonardo como artista muito tem a ver com sua história familiar e a infância em um povoado próximo a Vinci, na região de Florença, na Itália. Filho bastardo de uma camponesa de 16 anos com um tabelião, nasceu no dia 15 de abril de 1452, em Anchiano, onde, mesmo sem ter sido registrado pelo pai, Piero, foi criado na casa dos avós paternos. Cresceu dividindo a atenção dos pais com outros 17 meios-irmãos, realidade que explica a necessidade de se desenvolver intelectualmente por conta própria. Segundo biografias, a genialidade começou a ser externada na adolescência. Aos 14 anos, ingressou no ateliê de Andrea Verrochio, em Florença, onde recebeu seus primeiros trabalhos. Afinal, era isto a que a arte se resumia na época: um ofício. Professor de História da Filosofia da Renascença da Unifesp, Eduardo Kickhöfel afirma que, até o Renascimento, os pintores eram mais artífices do que artistas. “A noção de artista que temos hoje está ligada a despertar emoções. O que tínhamos no século XV era a encomenda de obras”, explica.

 

Contudo, há, no Renascimento, uma mudança nessa lógica da qual Da Vinci é figura importante. “Os renascentistas passam a atribuir valor às artes e ser prestigiados socialmente pelo seu trabalho”, ressalta Kickhöfel. A rebeldia de Leonardo demonstra essa compreensão do artista para além do artífice: “Da Vinci ficou conhecido por não terminar suas obras”. Leonardo chegou a negar pedidos de nobres, como a conhecida história da troca de cartas com a Marquesa de Mântua, a qual, após ter um retrato realizado por Da Vinci, solicitou novos trabalhos, os quais ele teria rechaçado. São conhecidas apenas 15 obras de pintura do renascentista, sendo algumas delas inacabadas, as quais estão expostas em museus pelo mundo e, principalmente, na Europa, como é o caso do Louvre, em Paris; Galleria Uffizzi, em Florença; Museu do Vaticano; Castelo Sforzesco, em Milão; e National Gallery, em Londres. Em seus últimos anos, Da Vinci viveu no Castelo de Clos Lucé, no Vale do Loire, em Amboise. Hoje, no interior da antiga casa do artista, é possível conhecer a sala onde Da Vinci trabalhava e o quarto em que dormia e onde morreu. Estão expostas ainda miniaturas de seus inventos (avião, automóvel, helicóptero, tanque, maquinarias diversas, entre outros), bem como cópias de documentos com seus esboços, desenhos e cálculos.

 

Seu reduzido acervo, porém, é rico e repleto de histórias. A Virgem das Rochas, por exemplo, é uma peça de óleo sobre madeira datada de 1485 que chama atenção pelo trabalho de contraste entre claro e escuro, bem como pela perfeição e realismo dos traços dos gestos de cada figura presente na pintura. Hoje a peça está exposta no Museu do Louvre, em Paris, mas há uma cópia, feita pelo próprio Leonardo, na National Gallery, em Londres. Outro trabalho distinto de Leonardo é a Última Ceia (1493-1498), pintura mural presente na parede do refeitório do Convento de Santa Maria Delle Grazie, em Milão. Essa obra foi a responsável por atrair olhares para o artista. Retrata, como aponta o título, a última ceia entre Cristo e os seus discípulos. Além disso, é exemplo do uso de seus estudos de arquitetura a favor da pintura, visto que a composição das pessoas em primeiro plano está em harmonia com as linhas da construção arquitetônica que é plano de fundo da pintura. É impossível abordar o trabalho de Da Vinci sem citar a Mona Lisa (1503-1506) e toda a história por trás da obra. Além de toda a técnica aplicada, que diferencia os trabalhos de Leonardo, a Mona Lisa tornou-se lenda pois, em 1911, cerca de 400 anos após ser pintada, foi roubada. Acreditava-se que a pintura estava perdida para sempre, mas foi encontrada na Itália com Vincenzo Peruggia, antigo empregado do museu onde a obra estava exposta.

 

Kickhöfel, estudioso dos estudos anatômicos de Leonardo, destaca que o artista era mais que um grande pintor; era também um desenhista excepcional: “Foi no desenho que Da Vinci conseguiu produzir uma linguagem quase universal”. Nesse âmbito foi capaz de traduzir conhecimentos que antes estavam restritos à academia, como o caso de seus estudos de anatomia, que estão hoje na coleção real da rainha da Inglaterra. O Homem Vitruviano é o trabalho mais conhecido nesse sentido: criado por volta de 1487, o desenho de tinta em papel retrata duas figuras masculinas sobrepostas com braços e pernas separados dentro de um círculo e um quadrado. Por meio de seu desenho, Da Vinci apresenta um estudo de proporções que une perfeitamente arte e ciência.

 

O polímata mostrou-se ainda um engenheiro de capacidade inventiva como poucos. Em carta a Ludovico Sforza, duque de Milão, o próprio Leonardo definiu-se como capaz de criar todos os tipos de máquinas, “tanto para a proteção de uma cidade quanto para o cerco”. Chegou a trabalhar como engenheiro e arquiteto militar, em Veneza, no ano de 1499, quando criou um sistema de barricadas móveis para proteger a cidade de um ataque naval. Também foi o responsável pelo projeto do que seria a ponte do sultão Bajazeto II de Istambul. Não tendo saído do papel, o desenho foi aproveitado em 2006 pelo governo turco, para medir o Corno de Ouro. Leonardo ficou conhecido, ainda, pelo seu fascínio pela possibilidade de voar. A partir de seu estudo detalhado sobre o voo dos pássaros, desenhou alguns protótipos. O primeiro foi nomeado Cisne Voador (1510) e consistia em um helicóptero dirigido por quatro homens. Antes disso, já sonhando em levar o homem ao céu, idealizou um “protetor para quedas”. Utilizando pano em formato de pirâmide, pretendia aprofundar seus estudos sobre os princípios da aerodinâmica. Essa ideia possibilitaria a criação do paraquedas moderno, no final do século XVIII.

 

O precursor do Alto Renascimento

Seu interesse pelo conhecimento de forma ampla, sua rebeldia e certo desleixo, bem como o fato de ser autodidata, transformaram-no em uma espécie de mito, mas sua real contribuição à arte está em sua técnica. Se a Mona Lisa é hoje um fenômeno social, é devido, entre tantos outros fatores, ao seu olhar – não importa em que posição esteja seu observador, sempre tem a sensação de ser encarado pela figura retratada a óleo, podendo ser apreciada hoje no Museu do Louvre, em Paris, na França. Leonardo deu origem à maneira moderna de pintar. “Foi isso que lhe deu prestígio já na época. Da Vinci deu graça para o desenho pintando figuras mais naturais”, relata Kickhöfel. O mesmo já havia sido referenciado por Giorgio Vasari: “Além do vigor e do virtuosismo do desenho, e além de forjar sutilissimamente todas as minúcias da natureza feitas assim como elas são, com boa regra, melhor ordem, medida correta, desenho perfeito e graça divina, abundantíssimo em cópias e profundíssimo na arte, deu a suas figuras o movimento e o sopro de vida”.

 

Era final do século XV quando Da Vinci deu início ao Alto Renascimento com pintura esfumada e sem linhas precisas. Assim abriu portas para nomes como Michelangelo e Rafael e para escolas como a veneziana. Mas também deixou uma bagagem maior: até hoje intriga quem se depara com sua arte pelo realismo das expressões das figuras humanas retratadas. Não é à toa que sua obra mais apreciada está exposta no Museu do Louvre, em Paris, o mais visitado do mundo, ao qual 80% dos 9 milhões de visitantes anuais se dirigem exclusivamente para ver a pintura de Da Vinci.

 

Exposição em homenagem aos 500 anos chega ao Brasil

Para marcar os 500 anos da morte de Da Vinci, roda o mundo, durante este ano, a exposição “Leonardo da Vinci – 500 anos de um gênio”. No Brasil quem recebe a mostra, que tem duração de 45 minutos de visitação, é São Paulo, no novo espaço do Museu da Imagem e do Som: o MIS Imersão. Em outubro será possível vivenciar a maior e mais completa exposição já realizada sobre sua obra, que inclui réplicas de arte renascentistas do artista italiano, seus esboços anatômicos, máquinas inventadas a partir de seu conhecimento, manuscritos da vida profissional, além das projeções de suas obras, grande diferencial do novo espaço.

 

Parceria entre a Grande Exhibitions e o Museo Leonardo da Vinci, de Roma, propicia uma área de imersão de 2,2 mil metros quadrados nos quais estão distribuídos 150 projetores. Uma das atrações de destaque é a animação do afresco A Última Ceia, com projeção da obra em tamanho real (4,6 m x 8,8 m). A tecnologia utilizada é chamada de SENSORY4, que cria a sensação de que os vídeos extrapolam a tela, por meio de uma experiência multissensorial que envolve sons, cores e luzes projetadas do chão ao teto.